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Dicas de Leitura A Hora da Estrela
Em um dos primeiros textos dessa coluna tive a oportunidade de dizer que um clássico é um livro que nunca termina de dizer o que tem para ser dito.
Isso significa que um livro clássico é também aquele que merece não apenas a primeira leitura, mas a segunda, terceira, quarta... Às vezes a leitura de uma vida inteira. Infelizmente, entre nós brasileiros, em especial os mais jovens, nossos clássicos só ocupam nossa atenção durante o ensino médio, ou nos cursinhos pré-vestibular, quando se precisa ler a malfadada “lista obrigatória”. Passada a peneira para entrar na faculdade, são raros aqueles que encontram estímulo para continuar lendo nossos livros, e, menos ainda, para reler qualquer um deles. Eis a triste verdade. Acontece que a riqueza e a beleza da nossa literatura merecem mais que apenas uma leitura obrigatória. Essa afirmação serve para todos os nossos grandes autores: Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade... A lista é imensa e dura para todo o sempre... Mas nenhum momento foi mais propício do que o atual para se ler uma vez mais Clarice Lispector. Por conta do lançamento de sua biográfica, escrita pelo badaladíssimo norte-americano Benjamin Moser, esperada com ansiedade por seus fãs brasileiros, Clarice vem ocupando as páginas de inúmeras publicações internacionais e sua obra vem sendo reverenciada com um entusiasmo que deveria encher de orgulho nosso país, tanto quanto nos orgulhamos pela vitória do Brasil para sediar a Copa do Mundo ou os Jogos Olímpicos. O mundo está de olhos voltados para a nossa literatura, estupefato pela grandiosidade de uma de nossas maiores estrelas, se perguntando como um país como o nosso, com tantas mazelas, pôde produzir uma arte tão genial. E nós... Bem, nós somos capazes de nos desfazer dos livros de Clarice depois de entrar na faculdade, como quem se desfaz de uma roupa fora de moda... E isso não é força de expressão! É um fato real, testemunhado por mim semana passada... O livro em questão, descartado como uma apostila sem serventia, era “A Hora da Estrela”, que quase sempre figura nas listas dos vestibulares. Condoída pelo desprezo com que o livro foi tratado, tomei-o para mim e levei para casa, mesmo tendo já um exemplar dele. Sábado à tarde, comecei a reler e não pude deixá-lo até que terminasse – é um livro pequeno, apenas 87 páginas – mas nas quais cabe um conhecimento imenso do nosso país, uma delicadeza infindável para falar do que temos de melhor e pior em nós, e uma das maiores personagens da nossa literatura, pois aquela Macabéia é simplesmente inesquecível! Guardei-o na estante e decidi que vou devolvê-lo à dona, na esperança de que um dia, um sábado qualquer, em vez de ficar em frente à TV sendo massacrada por uma avalanche de bobagens imbecilizantes, ela dê ao livro uma chance a mais de dizer o que ele tem para dizer. Espero que nesse dia, lendo sem a pressão de entender para saber a resposta que cairá na prova, quem sabe ela finalmente entenda a grandeza daquilo que lhe pertence como pessoa, como brasileira e como ser humano. Talvez nesse dia, “A Hora da Estrela” fique marcada na vida dela para sempre e se torne uma leitura para a vida inteira, da mesma forma que ficou na mente do jovem, inteligente, sensível e lindo Benjamin Moser, quando o leu pela primeira vez aos 19 anos: “A Hora da Estrela foi uma paixão. Ainda me lembro do livro, exatamente como alguém se lembra da primeira vez em que viu seu namorado ou namorada”. Ficha Técnica Título: A Hora da Estrela Editora: Rocco Páginas: 87 Valor: R$ 20,00 Simone Paulino é jornalista, escritora, mestranda em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP e professora do Curso de Formação de Escritores da Escola Superior de Direito Constitucional. É co-autora do livro-reportagem Identidade Perdida - Memórias de um Morador de Rua - Legnar Editora (2003), do livro de contos, Abraços Negados - Editora Casa do Psicólogo (2005) e do gifty book Minha Mãe, Meu Mundo - Editora Gente (2008). Em: 1/11/2009 :: MAIS RECENTES
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